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Entendendo a Crise - 2

Professor Metafix

Entendendo a Crise - 2

Dizem que Jonathan Swift, o sarcástico e irreverente autor de “As Viagens de Gulliver,” deixou um testamento doando toda fortuna para a construção de asilos de loucos na Irlanda, porque considerava seus patrícios o povo mais louco do mundo. Acho que ele errou o endereço e acertou a mensagem. A loucura e a insensatez se espalharam sorrateiramente pelo mundo todo, e com mais vigor nesse lado do Atlântico, ou da lagoa como dizem os Britânicos.

A confusão financeira é monstruosa e o tamanho das dívidas é incalculável. Como ninguém sabe com certeza quanto se deve e muito menos quanto se tem pra receber, a melhor alternativa seria começar tudo de novo. Chegamos ao cúmulo da entropia alienada da realidade econômica que serve apenas para mostrar que não existe mercado suficientemente disciplinado pra se manter sem supervisão pública.

O próximo presidente deveria decretar uma moratória geral, mandar destruir todos dados da dívida privada e da dívida pública, queimar todos dólares e introduzir uma nova moeda, com os seguintes dizeres: esta não serve para pagar dívidas! Assim, quem tem pra receber, não recebe e, quem tem para pagar, não paga. Acho que esse dinheiro rolando por ai é uma ficção, pois a economia vai até bem sem contar com os famigerados créditos de Wall Street que lastreiam a riqueza falsa.

Ninguém sabe quanto se deve, mas sabe-se mais ou menos que o Tesouro já emitiu mais de 4,5 trilhões de títulos da dívida publica. Existem mais de 6 trilhões de sub-prime. E se avaliam os “credit swaps” entre 50 e 70 trilhões de dólares. A única coisa que encolhe é o valor das ações que antes era de uns 22 trilhões, mas com a queda dos preço, a montanha se transformou num monte de especuladores uivantes.

Os credits swaps e o sub-prime se juntam como icebergs de águas profundas para aterrorizar os navegantes pelo mar de lama que se transformou o mercado financeiro americano. As loucuras das altas finanças se espalham por toda a Europa. Até a pacata e confiável Irlanda cometeu o pecado capital ao se transformar num paraíso do chamado Carry Trade. Os swaps e os carry trades são irmãos gêmeos dessa confusão que explicarei num momento.

Mas será que Deus não é culpado de tudo isso? Ele é que iluminou seus mensageiros que, dos púlpitos e na melhor das oratórias, pregavam o evangelho da prosperidade. Aconselhavam os irmãos a tomar dinheiro emprestado e aproveitar um pouco da vida nessa terra abençoada. Sou cético e não acredito que o Senhor se rebaixasse ao ponto de garantir o paraíso aos pobres aqui na terra. Ele mesmo afirmou que sempre teremos os pobres conosco. Não, não posso acreditar, mas tem gente acusando até as igrejas e os pobres pela tamanha façanha de querer a casa própria sem ter os recursos para pagar. De repente a Bíblia se torna o livro mais atual e lido do país, pois agora as profecias se cumprem a luz do dia na interpretação dos iluminados evangelistas que glorificavam o direito de possuir bens materiais. Amem!

Sabemos que os bancos garantiram os credits swaps e por isso pedem arrogo ao governo para cobrir o rombo. O governo, por sua vez, pede ao povo, mas esse implora para não ser taxado sem compensação. Olha que a revolução pela independência começou por causa de um imposto! “Não ao imposto sem representação”, gritavam os rebeldes. Da mesma forma, agora o povo conclama - não aceitamos resgate sem compensação! O governo, “sabiamente” escolhido promete que o povo terá lucro com esse resgate. Será que tudo isso tem fim, dado o monte de crédito cruzado? Isto é, Paulo deve a Pedro, Pedro deve a João, João deve a Mateus e este deve a Paulo. É assim que funcionam os derivativos, os créditos swaps e o sub prime. Se um desses elos se quebrar, forma-se uma corrente de inadimplência interminável. Tentarei explicar melhor, vamos lá, um por um.

Comecemos pelos credits swaps. Fala-se muito no sub prime, mas os swaps representam o maior montante de divida já vista na história de toda humanidade. Um montante equivalente a quase 70 trilhões de dólares, como mencionei antes. O swap funciona da seguinte maneira: um banco de investimento se encarrega de colocar títulos de dívida de uma empresa no mercado. Para atrair interessados, o banco oferecia garantia aos títulos se a firma falisse. Como a economia ia bem, o risco de falência era muito pequeno e os bancos ganhavam com os swaps. Mas imaginem a loucura! Banco oferecendo garantia a investimentos de risco? Isto mesmo! Banco agindo como seguradora sem ter a menor estrutura pra isso. Além disso, para fugir da supervisão do governo, não chamavam a garantia de seguro, apenas de crédito-swap, que denota uma leve troca entre parceiros. Isso mesmo, o banco oferecia garantia do título contra falência da firma que o emitiu e, em troca, quem comprou o título pagava um prêmio para eliminar essa parte do risco. Negócio bom pra todo mundo!

Depois da farra vem a dor de cabeça; uma boa parte dos títulos vendido ao pública com garantia de swaps eram derivados (derivativos) dos empréstimos hipotecários. Parece que a ganância não tem limites mas é leviana e trabalha pela força da insensatez. As hipotecas formavam apenas um lastro, uma fração dos títulos emitidos. Assim, uma hipoteca de duzentos mil dólares podia servir de lastro pra um milhão em títulos. Isto é, uma alavancagem de cinco pra um. Pois é, agora chegamos no verdadeiro culpado, o pobre! Este tomou dinheiro emprestado para compra aquela casinha e agora não pode pagar! Sério! Tem gente aqui que jura de pé juntos que os pobres, que tomaram dinheiro emprestado sem ter condições de pagar, são os verdadeiros culpados. Eu não sabia que tinha tanto poder, senão teria exercido-o mais cedo. Se os crédits-swaps fossem realmente alavancados de um pra cinco, a inadimplência naquela hipoteca de duzentos mil dólares provocaria um rombo de um milhão no sistema. Não temos dados concretos sobre o tamanho da alavancagem, mas o exemplo mostra como se forma um monstro sem o governo. Os envolvidos não sentem de imediato a monstruosidade do que se pode criar com métodos heterodoxo de se fazer negócios.

Os carry trades formam uma classe mais nobre de negócio, porém de alto risco e muito parecido com os credit-swaps por causa da alavancagem que os sustentam. Eles tem um nome diferente porque são aplicados no mercado de câmbio. Tomemos a Islândia pra explicar o efeito sobre a economia mundial e o que aconteceu nesse pequeno paraíso isolado no Atlântico Norte. A Islândia é um país tão pequeno que os habitantes não passam de 600 mil, mas tem uma população homogênea descendente dos vikings, um sistema social muito avançado e uma das rendas per capita mais alta do mundo. O produto interno bruto é de aproximadamente 20 bilhões de dólares.

A Islândia é rica e politicamente estável. Os bancos Islandeses estavam ganhando uma fortuna tomando dinheiro emprestado aos bancos Japoneses, onde a taxa de juros é quase zero, e emprestando a clientes em várias partes do mundo, inclusive na própria ilha. Cobrando juros de cinco a dez vezes maior do que pagavam pelos empréstimos. A estimativa é de que os bancos Islandeses tomaram emprestado mais de 120 bilhões de dólares. Agora terão de exportar muito bacalhau para pagar tudo isso. Não dá para acreditar, uma economia devendo seis vezes o produto interno bruto. Engraçado, lá não se ouve falar em credit rating tão badalado no Brasil.

Os bancos islandeses praticavam um swap, comumente chamado de carry trade e muito praticado pelos japoneses. No carry trade, a pessoa ou instituição toma o dinheiro emprestado numa economia com taxa de juros baixa e empresta noutra com taxa de juros maior. Até os trabalhadores no Japão praticam o carry trade. Quando recebem os salários quinzenal, vão aos bancos e compram, por exemplo, dólar australiano que paga juros de 6.5% a.a. Como sempre, o câmbio é o resultado da compra de uma moeda e a venda de outra, eles ganham também com a mudança na taxa de câmbio se estiverem certo quanto a apreciação da moeda australiana e depreciação da japonesa.

A taxa de juros no Japão é quase zero. Quem pratica o carry trade busca ganhar o swap, a diferença dos juros, como dito. Neste caso, ganha-se a diferença entre a taxa de juros da Austrália e a do Japão. Se o ativista tiver sorte de o dólar australiano apreciar, ganha duplamente, na diferença dos juros e na apreciação da moeda comprada. Aqueles que tem bom crédito podem ampliar os ganhos fazendo um carry trade alavancado. Alavanca! Essa é a mágica da atualidade que Arquimedes nunca imaginou ser tão útil. Se o banco emprestar dez por um, os 6% de diferença no swap se transformam em 60% ao ano. Doce loucura, não?

Note que, existe uma diferença entre a alavancagem do investidor individual e do investidor institucional. O primeiro deixa um depósito com o banco para garantir o empréstimo. Se o valor do empréstimo alavancado diminui mais do que o lastro de garantia, deixado com o banco, este fecha a conta imediatamente e não terá prejuízo. No caso do investidor institucional, ele toma o dinheiro emprestado ao banco lastreando a garantia com outros ativos. O problema é que os outros ativos também podem estar alavancados. E ai se cria uma cadeia de dividas alavancadas. Na falência de um, todos caem como dominó no tabuleiro do desespero. Esse é o cúmulo da loucura em que chegou a economia americana e a mundial. Mas a marcha da insensatez não para por ai. Ainda temos o papel dos chamados “hedge funds” que aplicaram bilhões em ativos alavancados sem a supervisão das autoridades monetárias. Muitos desses fundos tem sede em paraísos fiscais onde são protegidos e imunes as sanções cabíveis aos outros investidores. Essa é a parte do iceberg que ainda não se chocou com o navio. Entretanto, aos poucos muitos investidores não conseguem sacar os recursos investidos porque estão depositado no poço da esperança, em ativos alavancados, aguardando o os preços “subirem” mais um pouco!

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Danilo comentou:

Grande Professor,
Tanto se fala da crise, de sub prime, etc, mas confesso que via com tanta clareza como vejo agora depois de ler seu conteúdo.
Em nenhum lugar eu vi explicação tão clara de como é a "bola de neve" dessa crise.
Valeu pela aula.


storga comentou:

limite do realismo.


 
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