Escolha intertemporal dos investimentos - A relação entre ganância e risco : análise técnica, como investir na bolsa de valores (Bovespa)

Escolha intertemporal dos investimentos - A relação entre ganância e risco

Escolha intertemporal dos investimentos
A relação entre ganância e risco

Existe um ditado que diz que – quando a ganância vence, o investidor perde – nonada! A literatura está repleta de advertência sobre o perigo da ganância no mercado financeiro. Terry Burnham em seu livro – The Mean Gene – para demostrar o poder da ganância – nota que, se você doar uma bala para uma criança prometendo-a que se ela não comer aquele doce imediatamente ganhará mais um quando você voltar, invariavelmente a criança não consegue esperar. Ora, a maioria dos exemplos sobre a ganância trata-se de interpretação errônea do que seria precaução contra o risco.

Já aconteceu isso com você numa jogada ou na compra de uma ação, quando você poderia ter um ganho muito maior, mas não conseguiu esperar? Pois não se preocupe com esse defeito porque, segundo a teoria biológica da evolução, todos temos o mesmo problema. Biologicamente fomos formados para agir com rapidez e com certeza. Isso faz parte da defesa natural para garantir a sobrevivência da espécie. É melhor uma balinha garantida agora do que duas incertas depois. Até uma criança sabe disso!

A pressa é irmã gêmea da ganância e provoca desejos incontroláveis em relação aos investimentos, a alimentação e atrapalha até a vida sexual das pessoas. A pressa e ganância para colocar dinheiro no bolso como se fosse uma balinha da sobrevivência nos transformam em criança desconfiada que age antes da hora para não perder a oportunidade garantida. Portanto, ganância no sentido de se obter o máximo possível pode ser uma forma de administração de risco.

"A Teoria do Prospecto mostra que pagamos muito mais para não perder do que para ganhar" Um correlativo dessa postura é aquela que trata da aversão ao risco. A Teoria do Prospecto mostra que pagamos muito mais para não perder do que para ganhar. Isto é, se houver duas oportunidade com idênticas probabilidades, uma para se ganhar uma quantia X, e outra de perder a mesma quantia, as pessoas pagariam muito mais para não perder do que para ganhar. Por isso, sentimos muito mais seguros quando fazemos jogadas de curto prazo do que de longo prazo. Uma das dificuldades em análise de projetos é escolher uma metodologia que não contemple o tempo de recuperação do capital. Apesar desta não ser a mais indicada do ponto de vista econômico, é a preferida dos investidores.

Quando aceitamos nossas falhas biológicas fica muito mais fácil de corrigir os efeitos delas. Os óculos me incomodam, mas sem eles não poderia escrever estas linhas.

Infelizmente, a ganância é uma ditadura da biologia que foi sempre interpretada, até recentemente, como um defeito moral condenável por todas religiões. Sofremos com o estigma, sem meios ou até mesmo forças para evitá-lo a não ser pelo sofrimento mental do complexo de culpa que a criação religiosa legou. Até os especuladores enrustidos admoestam-nos pra investir no longo prazo, como se a responsabilidade econômica do futuro recaísse exclusivamente nos aplicadores anônimos. Investir no longo prazo é como esquecer e abandonar o gado no pasto ignorando que é o olho do dono que engorda o boi. Isto é, não podemos abandonar a administração dos nossos ativos e nem tirar o olho do fluxo de caixa. Para fazer isso, precisamos assumir riscos e posturas “gananciosas” sem medo das conotações pejorativas.

Quanto mais longo for o prazo maior é o nível de incerteza de nossas aplicações. A maioria dos pequenos especuladores necessita do retorno do capital para sobreviver. Isto é, todos se preocupamos com tempo de recuperação do capital como a criança que não pode esperar para saborear o doce que tem na mão. A criança não é gananciosa, no sentido pejorativo da palavra, mas é intuitivamente precavida porque pela própria biologia é importante garantir o futuro saboreando o presente. É por isso que a maioria dos especuladores gostaria de saborear o fruto da especulação evitando os risco de longo prazo. Infelizmente, quando entramos nesse negócio as palavras de ordem são – longo prazo, espere não seja ganancioso. A ganância existe, mas jamais domarei a minha negando-a!

Os bônus do tesouro americano ainda são considerados o investimento mais seguro. Entretanto, retorno esperado dos bônus de 30 anos atualmente está na casa dos 4,2 % a.a. Enquanto os de curtíssimos prazo, 2 anos não passa de 1,5 por cento. Será que os investidores de longo prazo são mais gananciosos ou estamos interpretando uma realidade econômica e biológica por um prisma moral desprovida de fundamentos histórico - cientifico?

Peter Bernstein, em seu livro maravilhoso – Against the Gods – traça a historia dos riscos e da probabilidade. Até bem pouco tempo, as coisas aconteciam e tínhamos que nos conformar porque era a vontade divina. Com o advento da probabilidade, podemos calcular os risco sem infringir no direito da divindade. Agora colaboramos com os deuses para que sejam mais generosos pois podemos nos proteger colocando o que chamamos – prêmio ao risco. Assim evitamos os transtornos sem a culpa de sermos gananciosos.

"o querer além do que é possível é um mal corruptor que prejudica a racionalidade das decisões" Entretanto, precisamos controlar a ganância quando ela interferir na racionalidade econômica roubando nossa paciência, precipitando nossas decisões e elevando a esperança vazia de fundamentos concretos aos extremos da fé. Nesse sentido, o querer além do que é possível é um mal corruptor que prejudica a racionalidade das decisões. E qualquer defeito, quer seja genético ou adquirido pela criação, deve ser corrigido. Conscientes de que temos esse defeito a luz da realidade atual, pois era uma virtude num ambiente primitivo, precisamos escolher meios para enganá-lo porque não podemos eliminá-lo. Não esqueçamos de que nas sociedades onde se prega a abstinência econômica prevalece a miséria e todo tipo de problemas relacionados com a falta de meios para sobreviver.

Professor Metafix

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Milton comentou:

Muito bom professor. Eu sendo uma pessoa com formacao na area "das biologias" nao tinha me dado conta disso.

realmente, nosso cerebro, principalmente o masculino foi formado para querer e garantir o maior e o mais rapido possivel.

vou dar uma procurada em artigos cientificos sobre ela( a ganancia).

Valeu, abcs.


 
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