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A Crise Chinesa

Professor Metafix

A Crise Chinesa.

             Sabemos que o problema da maioria das economias é o nível de endividamento. Enquanto esse problema não for equacionado, as economias não crescerão num ritmo suficiente para criar novos empregos. Até agora a China era considerada uma ilha de exceção. Entretanto, algumas notícias revelam um quadro um pouco preocupante. Os jornais noticiam uma crise de crédito, mas, aparentemente há um equivoco. Necessário entender que os chineses resolvem o problema da moeda de uma forma diferente das economias ocidentais. Os jornais capitalistas não entendem que um bom partido comunista não acredita em fiat money – dinheiro pela fé. Dinheiro tem que ter um certo lastro.

            Sabemos apenas que, para sair da crise, as economias européias e a americana trabalham em conjunto para aumentar o nível de moeda em circulação e atender a demanda por novos créditos. Aumentar o dinheiro em circulação é bom para o mercado financeiro, mas é uma forma indireta de repassar renda para esse setor. A pressa para sanar a crise tem um preço – a inflação. Os chineses tem consciência dessa solução,mas controlam a moeda sem impedir outras formas de financiamento da produção. Uma boa parte do circulante é lastreado com projetos produtivos.

            A inflação é uma consequência de uma solução apressada para a crise que surgiu, em parte, por causa de uma moeda sem controle e sem lastro. Assim, as autoridades monetárias injetam dinheiro na economia fingindo que os preços estão sob controle. Os governos permitem fazer isso dentro de certos limites para tirar proveitos políticos. Infelizmente, quando o milagre é grande se desconfia do santo! O que não se deve é enganar todo o povo todo tempo. Entretanto, as autoridades monetárias iludem os credores e trabalhadores com dinheiro novo que, que à medida que tempo passa, vale menos.

            Aparentemente, os chineses têm controlado a inflação de forma invejável. Lá, o ritmo de crescimento já foi muito alto e ainda continua, porém menos intenso. Apesar disso, a inflação é de apenas 2,5 por cento ao ano.

            Atualmente os jornais do ocidente afirmam que falta de dinheiro na praça, mas os produtores podem recorrer aos bancos e obter letras de crédito. Estas podem ser negociadas com descontos, embora bastante elevados. A emissão desses papéis é comum e funciona como se fosse um moeda paralela. Entretanto, a imprensa, com um sentimento de schandefreude, interpreta isso como se fosse um jeitinho pra fugir das regras.

            O governo chinês se interessa pelo emprego e a produção e pune severamente os agiotas e aproveitadores ocasionais. Entretanto, as autoridades não regulam para assumir os riscos dos negócios legítimos, isso faz parte do contrato entre as partes. Eles não precisam de cartórios para garantir a integridade dos negócios. O produto garante o crédito independente da honestidade das partes.

            Na realidade não falta liquidez na economia chinesa, contrário do que o Jornal Wall Street vem noticiando. A quantidade de dinheiro, relativa ao PIB, circulando na China é um dos mais altos do mundo. Dados do Fundo Monetário Internacional mostram que o dinheiro representa 180 por cento do valor do PIB anual. Isto é, a China usa muito mais dinheiro, para atender as necessidades de trocas, do que as economias ocidentais. Por exemplo, países como Suécia e Suíça usam menos de 40 por cento. Entretanto, na China uma boa parte do dinheiro tem garantias reais na produção. E para completar a estabilidade do sistema, a dívida pública chinesa é uma das mais baixas do mundo.

            Será que nas economias avançadas o dinheiro é mais eficiente, ou os chineses são menos dependente de uma moeda sem lastro, que se multiplica automaticamente na contabilidade dos bancos? Aparentemente, uma crise econômica na China provocada por endividamento extremo como aconteceu nos Estados Unidos seria mais suave e bem mais difícil de acontecer.

             Aqui e em outras economias a única garantia para o dinheiro é a promessa do governo de que todas transações devem ser pagas com o numerário oficial. Lá, o governo também garante, mas vai mais longe e diz – mostre o projeto que emprestamos o dinheiro; aqui fazemos o contrario – pegue o dinheiro e uso como quiser. Aqui, os bancos fazem de tudo para saber se as partes são honestas e esquecem de que se a economia não vai bem, muitos se tornam inadimplentes. 

            Ora, não podemos ter estabilidade quando a moeda corre trás de mercadorias que não existe ou existe muito pouco. Aqui quando não existe mercadoria dizem que é falta de crédito, e as autoridades respondem imprimindo mais dinheiro. Na China a preocupação é com a falta de mercadorias.

            Mesmo que não haja crise de endividamento na China, as companhias brasileiras, que antes se sentiam confortáveis exportando pra lá, precisam modificar os planos de longo prazo para contemplar mudanças nos ciclos de negócios e evitar os riscos de negócios naquela economia. Por outro lado, os investidores e portadores de ações de companhias como a Vale e outras mais, que exportam para aquele mercado, também devem ficar atentos às mudanças e os riscos desses papeis. A economia chinesa já é tão grande que mesma que não haja uma crise financeira, qualquer diminuição na atividade econômica afeta o valor das ações por aqui.

Boa Sorte!
Prof. Metafix

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Rogério comentou:

Estimado Prof. Metafix,
Por favor, escreva mais! Vossos textos fazem a diferença. Acrescentam muito conhecimento e experiência. Me fazem enxergar no "escuro" do mercado financeiro brasileiro. Ter certeza do que antes só desconfiava. Confirmar o que imaginava. E ficar surpreso com outras coisas que nem sonhava. Também me fazem acreditar, quando fala em "inteligência cognitiva" para superar computadores. Fazendo uma analogia perigosa, me lembra do Kasparov, do xadrez. Tenho aprendido muito, lendo e relendo os textos.
Escreva mais!
Um abraço!
Rogério


 
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