Quanto se ganha de fato com Buy&Hold Análise Técnica Investimentos Bovespa: análise técnica, como investir na bolsa de valores (Bovespa)

Quanto se ganha de fato com Buy&Hold

Hindemburg Melão Jr.

Quanto se ganha de fato com Buy&Hold

Uma das diferenças fundamentais entre as bolsas de valores e o mercado de divisas é que as bolsas apresentam valorização cumulativa a longo prazo, e oscila em torno de uma curva consistente de crescimento, enquanto o mercado de divisas oscila para cima e para baixo, sem haver curva de crescimento a longo prazo. Este é um dos motivos pelos quais a esmagadora maioria dos investidores foge do Mercado Forex, preferindo a facilidade de ganhar na Bolsa com o puro e simples Buy&Hold.

A percepção que se tem é de que nas Bolsas de Valores não é necessário aplicar nenhuma estratégia, não é necessário nenhum conhecimento. Basta comprar o índice, ou os principais componentes do índice, ou uma seleção aleatória dos principais componentes do índice, ou alguma seleção arbitrária dos componentes do índice, e aguardar alguns anos ou décadas, para obter algum lucro. Algumas pessoas podem se iludir com a ideia de que fazendo uma seleção criteriosa, conseguirão um ganho substancialmente maior que o crescimento do índice, mas, na verdade, cerca de metade das pessoas que tentam selecionar seu portfolio consegue um pouco mais que o índice, enquanto a outra metade fica abaixo do índice. Em média, empatam com o índice, e o fato de alguns ficarem um pouco acima ou um pouco abaixo está muito mais relacionado à sorte/azar do que ao fato de terem adotado bons critérios na seleção de seus ativos.

Quando tentam fazer várias operações de compra e venda, em vez de simplesmente comprar e segurar, acabam perdendo muito mais em cada operação, com corretagens, spreads, emolumentos, custódia, liquidação, e ficam muito abaixo do índice. Quanto maior o número de operações que realizam, pior a performance. Na maioria dos casos, não adianta tentar escolher o momento de entrar ou de sair em cada operação, nem adianta tentar selecionar as ações que se acredita que tenham maiores probabilidades de subir. Estas escolhas acabam se mostrando equivalentes a escolhas aleatórias, ou até piores.

São raros os casos de investidores como Soros, que fazem várias operações relativamente curtas e mesmo assim ficam positivos, e ainda por cima ficam bastante acima do índice. Ou como Buffett, que conseguem selecionar ações que realmente superam o índice a longo prazo.

Há alguns anos, pouco antes de o Real se valorizar em relação ao Dólar, Buffett ganhou bastante dinheiro apostando no Real contra o Dólar. Um investidor como Buffett, que consegue realmente selecionar instrumentos financeiros com melhores perspectivas de valorização, pode operar indiferentemente comprando e vendendo, tanto nas Bolsas quanto em Forex. Mas para a esmagadora maioria dos investidores, que dependem de ser arrastados pela correnteza num movimento ascendente para que ganhem algo, é desvantajoso aplicar em Forex, porque diferentemente das bolsas, as cotações das divisas não apresentam uma tendência de crescimento a longo prazo, logo não faz sentido Buy&Hold em Forex. Se considerar o DJI nominal desde 1976, subiu de 1.000 para 16.000. Se considerar a Libra Esterlina cotada pelo Dólar, em 1976 estava em 1,60 e agora está em 1,65, depois de ter oscilado até quase 2,5 para cima e quase 1,0 para baixo. Ou seja, praticamente não houve variação num período de quase 40 anos, enquanto o DJI aumentou 1.500% neste mesmo período. Se considerar a Libra Esterlina desde 1915, temos uma variação de 4,03 para 1,65, com desvalorização 59,06% em 99 anos, enquanto o DJI subiu de 54,63 para 16.331,05, uma valorização de 29.793,92% no mesmo período de 99 anos. A pequena variação em GBPUSD pode ser interpretada como flutuação ou como uma pequena desvalorização permanente, enquanto a valorização do DJI de quase 30.000% representa claramente um aumento. E mesmo que tenha ocorrido uma desvalorização permanente em GBPUSD, em 1915 não era possível saber se o correto seria comprar GBPUSD ou comprar USDGBP, mas era possível saber que no caso do DJI deveria comprar para que valorizasse no longo prazo. Portanto o conhecimento de que GBPUSD se desvalorizou é um conhecimento post facto em 2014, mas era desconhecido em 1915, portanto não havia como tomar uma decisão em 1915 que possibilitasse obter lucros negociando GBPUSD naquela época, ao passo que o conhecimento de que o DJI se valorizaria nas décadas seguintes era quase certo, portanto mesmo em 1915 era possível decidir comprar DJI visando lucro a longo prazo.

Esta maior dificuldade de ganhar em Forex faz com que este mercado atraia alguns perfis de investidores, mas afaste outros. Por exemplo:

·        Grandes bancos de investimentos e bancos centrais, que operam com a finalidade de interferir nas cotações naturais das moedas de seus respectivos países, ou fazer hedging. Estas instituições não visam propriamente o lucro, como meta principal, mas sim a contenção na desvalorização de sua moeda, a proteção contra fortes variações nas cotações das divisas e outras finalidades similares.

·        Traders que utilizam estratégias verdadeiramente eficientes, que não dependem de que o Mercado suba para que tenham lucro. Representam uma ínfima parcela neste Mercado, talvez com menos de 5 pessoas no mundo que se enquadram neste perfil. Para eles, o Forex pode ser até melhor que as Bolsas, devido à maior liquidez e à facilidade para operar long e short (comprando ou vendendo). No Brasil, por exemplo, as vendas a descoberto são onerosas e burocráticas, e até poucos anos atrás nem sequer podiam ser realizadas via home broker. Essa dificuldade se deve ao fato de envolver um processo de locação de ações, que são vendidas, e depois são recompradas para serem devolvidas ao locador. No Forex não é assim. A compra de EURUSD equivale à venda de USDEUR, não requer locação, não envolve taxas adicionais, e comprar é tão simples quanto vender.

·        Traders que utilizam estratégias ineficientes, mas acreditam que sejam eficientes. Numericamente estes constituem a esmagadora maioria dos investidores tanto em Forex quanto nas bolsas, porém se operarem nas Bolsas, exclusivamente no lado comprador, acabam sendo arrastados para cima pela correnteza. Mas ao operar no Forex, suas estratégias acabam sendo submetidas à prova, e acabam se frustrando com os resultados. Entram no Forex seduzidos pela ilusão de lucros fáceis e imensos, chegam a este Mercado completamente despreparados e sem a menor possibilidade de obter qualquer lucro. Geralmente perdem tudo ou quase tudo em poucos meses ou dias. Em alguns casos, são pessoas inteligentes e instruídas, mas que subestimam a dificuldade e a complexidade do Mercado Financeiro. Em outros casos, tomaram conhecimento sobre Forex em algum site que prometia lucros exorbitantes e caíram no conto da galinha dos ovos de ouro.

Estes são os 3 perfis que se sentem atraídos pelo Forex. E o perfil que repele o Forex é constituído principalmente por investidores fundamentalistas, que compreendem melhor as dificuldades inerentes ao Mercado do que os analistas técnicos, e acabam optando por investir com objetivos modestos, de empatar com o índice ou ficar um pouco acima. Como no Forex isso equivaleria a ter lucro 0, acabam evitando este Mercado e investindo nas bolsas, nas quais o índice sobe a longo prazo. Geralmente praticam Buy&Hold de ações selecionadas e acabam obtendo, em média, mesmo desempenho do índice, algumas vezes ficando um pouco acima, outras vezes um pouco abaixo. É como um conhecido comentou certa vez num artigo “O jogo do perdedor”, em que ele descrevia como um jogador de tênis pode vencer um oponente mais forte, simplesmente não tentando fazer jogadas espetaculares, e deixando que o outro erre ao tentar fazer grandes jogadas.

Ao investir em ações, se a pessoa tiver humildade e se resignar a fazer o “jogo do perdedor”, limitando-se a comprar o índice e segurar, ela não vai perder muito a curto prazo e ainda poderá ter ganhos consistentes a longo prazo. Porém se ela ficar tentando acertar os momentos de comprar e vender, e ficar tentando escolher as ações que vão subir, o resultado será desastroso, exceto se a pessoa for de fato um Boris Becker.

Este perfil de investidor que prefere as Bolsas em lugar do Forex, acredita que consegue obter lucros de uma maneira tão fácil quanto plantar dinheiro no quintal e aguardar crescer. Mas até que ponto isso é verdade?

Embora o Índice Dow Jones tenha sido criado em 1896 e a Bolsa de Nova Iorque tenha sido fundada em 1792, existem registros sobre negociações de valores mobiliários nos Estados Unidos desde 1776, que podem ser utilizados como parâmetros para representar o DJI desde muito tempo antes que este índice existisse. O mesmo se aplica à Bolsa de Londres, que foi fundada em 1801, mas há registros de cotações desde 1697, e informações sobre preços de commodities desde 1285.

Buy & Hold

Se descontar a inflação nos Estados Unidos, o DJI teve um crescimento real de 1,46% ao ano desde 1776 até 2006. O gráfico mostra a história do DJI corrigido pela inflação. Se considerar o IBOV corrigido pela inflação no Brasil, o resultado é semelhante, exceto por ter histórico muito mais curto (com início em 1968), de modo que alguns eventos raros não chegaram a ocorrer nenhuma vez, como a quebra da bolsa de Nova Iorque de 1929, e a distribuição de frequência de eventos raros pode apresentar anomalias locais. Mas, em geral, o ritmo de crescimento do IBOV a longo prazo, descontando a inflação do Brasil, fica basicamente igual ao crescimento do DJI descontando a inflação dos EUA.

Como o histórico que temos do DJI é mais longo, portanto mais isotrópico e mais homogêneo, tomaremos o DJI como referência. Isso nos leva a concluir que o crescimento real do índice é algo em torno de 1,5% ao ano. Além disso, algumas empresas pagam dividendos, outras não, sendo que aquelas que pagam dividendos estão subtraindo parte do lucro que poderia ser reaplicado e, com isso, estão deixando de crescer. Portanto não é razoável selecionar empresas com base no quanto elas pagam de dividendos, já que os “ganhos” com dividendos estão na verdade saindo do crescimento da empresa e da valorização das ações. Neste artigo, discuto a problemática dos dividendos: http://www.saturnov.com/artigos/187-a-ilusao-dos-dividendos. O que se observa é que uma empresa que esteve pagando altos dividendos nos últimos anos, tende a reduzir estes pagamentos ou tende a reduzir seu ritmo de crescimento nos anos seguintes. Logo, tentar ganhar por meio da seleção de pagadoras de altos dividendos no passado recente, resultará na compra de empresas que não apresentarão boa valorização das ações nos próximos anos ou pagarão menos dividendos nos próximos anos.

Se não houver tentativas de adivinhar as empresas que produzirão maiores ganhos e simplesmente comprar as componentes do índice, e somar os dividendos das empresas que pagam dividendos, o ganho anual médio real, somando o crescimento com os dividendos à valorização anual média de 1,5%, chega-se a um lucro anual real entre 2,5% e 3,5% ao ano. Ao descontar spreads, corretagens, emolumentos, custódia, liquidação, ainda fica perto de 2% a 3% ao ano. Ótimo! Isso não é muito, mas é melhor que nada. Além disso, a poupança, desde 1965, apresenta uma perda acumulada média de 0,6% ao ano em relação à inflação. Alguém que tivesse começado a aplicar na poupança em 1965, teria atualmente acumulado cerca de 28% de prejuízo no poder de compra. Então ter um rendimento real de 2% a 3% ao ano acima da inflação é bom negócio?

A resposta é: não. Se comparar Buy&Hold com outras alternativas, como poupança, CDBs e títulos do tesouro, levando em conta também os riscos de calote do governo nos casos de títulos de crédito, então o Buy&Hold é realmente uma das melhores opções. Mas isso não significa que produz ganhos reais, porque há mais um fator importante que precisa ser considerado: os impostos. A cobrança de impostos é feita sobre os ganhos nominais (sem descontar a inflação), não sobre os ganhos reais. Por exemplo: Você investe $ 100.000, ganha 5% no ano, houve 7% de inflação, portanto você perdeu, mas mesmo assim você tem que pagar imposto sobre os 5% de lucro nominal!Este é feito é mais grave em períodos de hiperinflação, portanto traz mais problemas no Brasil do que em países com Economia mais estável. A cobrança de imposto sobre ganhos nominais corrói praticamente todo o lucro, deixando o ganho real a longo prazo abaixo de 0 no Brasil, ou seja, na verdade a prática de Buy&Hold resulta em perdas a longo prazo. Mas são perdas pequenas, e acaba sendo menos ruim do que deixar o dinheiro parado. Também é menos ruim do que tentar usar análise técnica e perder muito, e muito rápido.

Isso é o que se pode efetivamente esperar com Buy&Hold do índice a longo prazo. A curto prazo, a pessoa pode passar por uma crise como a de 1999-2000, com queda de 70%, e ainda hoje não voltou acima de 50%. Já se passaram 15 anos e ainda não foi recuperado nem metade do prejuízo, com expectativa de que daqui a mais 40 anos o poder de compra volte quase ao patamar de antes das perdas sofridas em 1999.

Portanto a crença em que Buy&Hold seja lucrativo a longo prazo e seja seguro a curto e médio prazo não encontra suporte nos fatos, quando se leva em consideração a inflação e os impostos que incidem sobre os ganhos nominais. Ganhar com Buy&Hold é um mito. Pode ser um mito mais sofisticado e mais próximo da verdade do que os mitos de ganhar com poupança ou ganhar com imóveis, mas ainda assim não reflete a realidade.

 Por Hindemburg Melão Jr.
www.saturnov.com

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sbeatle comentou:

Ou seja, na "média", tudo é "mediocre"


 
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